Quando o seu diferencial vira regra: O que o erro da The Body Shop ensina

A The Body Shop não fechou por falta de produto. Fechou por falta de resposta para uma pergunta que toda marca vai precisar responder algum dia: O que você é quando o que te tornava especial vira obrigação do mercado?

POSICIONAMENTOANÁLISE DE MERCADOBRANDINGPROPÓSITO

Laísa Sandin

5/11/20263 min read

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Em 1976, uma pequena loja abriu as portas em Brighton com uma proposta que soava quase absurda para a época: cosméticos naturais, ingredientes de comércio justo, embalagens retornáveis e zero testes em animais.

Naquela década, a crueldade animal era a regra da indústria. Mas a The Body Shop tinha uma visão de mundo diferente. Quem comprava os produtos de Anita Roddick não levava apenas um creme, levava uma causa. E, por muito tempo, ser uma marca eco-friendly e cruelty-free foi o suficiente para se manter no topo, com filas dobrando a esquina.

Mas o movimento cresceu. O consumidor ficou mais exigente. As leis começaram a mudar.

O que antes era o grande atrativo da marca, virou expectativa básica. Quando a característica que separa a sua empresa da concorrência passa a ser o requisito mínimo para entrar no jogo, acontece o que chamamos de commoditização do diferencial.

A armadilha do "ainda funciona"

Quando o diferencial perde a força, a marca se vê diante de duas escolhas:

  1. Reinventar a frente de batalha: manter os valores, mas identificar onde o mercado ainda é omisso e fincar a bandeira ali.

  2. Compensar relevância com volume: abrir mais canais, dar mais descontos, gritar mais alto. Gerar mais ruído.

A The Body Shop escolheu o segundo caminho. O declínio foi lento, mas inevitável: perda de margens, fechamento de lojas e um pedido de recuperação judicial em 2024.

O perigo dessa transição é que ela é silenciosa. A marca não para de vender de um dia para o outro. Ela ainda tem tração, ainda tem um público fiel. As vendas caem, mas a operação se sustenta. O lucro diminui, mas a máquina continua girando. É exatamente nesse falso conforto que a maioria cai na armadilha: se o negócio ainda funciona, reinventar parece um risco desnecessário.

Só que esperar a crise bater para se reposicionar custa caro. Faltará capital, tanto financeiro quanto simbólico, para sustentar a nova fase com profundidade.

O espelho para o mercado de hoje

O que tudo isso tem a ver com a sua marca hoje?

Se você está construindo uma marca de beleza agora, é provável que esteja apostando em pilares como clean beauty, ingredientes rastreáveis, embalagens sustentáveis ou formulações livres de certos ativos.

Eles são diferenciais reais. Eles funcionam. Mas olhe para onde a maré está indo.

O clean beauty já não é um nicho exclusivo. Já ocupou as prateleiras das grandes farmácias. Já tem versão no mercado de massa. A embalagem reciclável ganhou seção fixa nos e-commerces. O rótulo "sem parabenos" mal precisa de destaque, porque o consumidor já assume que não deveria estar lá.

O percurso de comoditização que a The Body Shop levou 30 anos para completar, o mercado atual faz em 5.

Reinventar não é trair

Esse é o ponto que mais trava as fundadoras. Existe um medo compreensível de que buscar um novo diferencial signifique abandonar os valores originais da marca. Que atualizar o discurso é o mesmo que assumir que o passado não importa mais.

Não é. Reinventar a frente de batalha é, na verdade, aprofundar o compromisso. É abordar a sua causa por um ângulo que o mercado ainda ignora.

No caso da The Body Shop, a evolução natural poderia ter sido a rastreabilidade radical da cadeia de suprimentos, a regeneração ambiental provada com dados ou o impacto comunitário auditado em tempo real. Pautas que o mercado ainda não normalizou, e que poderiam ter sido lideradas por eles enquanto havia tempo e caixa.

Os valores de Anita Roddick permaneceriam intactos. Apenas a linha de frente seria nova. A conversa voltaria a ser urgente.

Manter os ideais. Atualizar o diferencial. Esse é o trabalho invisível de uma marca viva.

Quando o que te torna especial hoje virar o padrão amanhã (e vai), o que você ainda será? Marcas que respondem a essa pergunta antes da crise são as que constroem um legado. As que fogem da resposta ficam dependendo de promoção para manter o volume.

E desconto, como a história acabou de provar, não sustenta posicionamento. Sustenta, no máximo, o próximo trimestre.

Estratégia de marca com intenção, emoção e presença.

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