Por que o mercado de beleza está obcecado em parecer comida?
O mercado de beleza têm usado alimentos para promover os produtos. Descubra o que está por trás deste movimento.
PRODUTOSPOSICIONAMENTOVALORANÁLISE DE MERCADO
Laísa Sandin
12/29/20252 min read


Não é de hoje que o mercado de beleza associa seus produtos a aromas. Baunilha, coco, frutas, chocolate. Isso sempre fez parte do repertório sensorial da indústria. O que mudou não foi o cheiro, foi a linguagem.
Hoje, o produto não apenas lembra comida. Ele parece comida. Texturas que escorrem como mel, glosses que lembram geleia, cremes filmados como sobremesa, embalagens que evocam confeitaria. Mais do que uma tendência estética, esse movimento revela uma adaptação profunda ao modo como consumimos beleza no ambiente digital.
Beleza sempre foi experiência física. Testar, tocar, espalhar, sentir textura, absorção e conforto. No digital, tudo isso desaparece. A tela não entrega tato, peso ou sensação. Ela entrega imagem. E é nesse vazio sensorial que a comida entra como um atalho poderoso. Comer é a experiência mais tátil, visceral e universal que temos. Todo mundo sabe como é o mel escorrendo, a manteiga derretendo ou um creme aerado se desfazendo na colher. O cérebro não precisa de esforço para interpretar essas imagens. Ele reconhece, sente e reage.
Quando uma marca mostra um sérum como se fosse calda ou um balm como se fosse doce, ela não está falando de sabor. Está emprestando sensações conhecidas para compensar aquilo que o digital não permite experimentar. É uma tradução sensorial pensada para a tela.
Esse recurso funciona ainda melhor porque a comida desperta desejo sem exigir racionalização. Produtos de beleza costumam pedir explicações técnicas, ativos, porcentagens e promessas. A comida, não. Ela ativa desejo direto, antes da lógica. Em feeds saturados, onde a atenção é curta e o cansaço cognitivo é alto, essa estética reduz o esforço da decisão. O consumidor não precisa entender tudo. Ele simplesmente quer.
Existe também um subtexto importante nessa obsessão visual: textura virou evidência silenciosa de eficácia. No imaginário coletivo, produtos muito líquidos parecem fracos, produtos secos parecem pouco eficazes, enquanto texturas densas, brilhantes e cremosas são associadas a riqueza, nutrição e performance. Mesmo que isso nem sempre seja tecnicamente verdadeiro, o cérebro cria essa equivalência automaticamente. No ambiente digital, onde não há teste, ver passa a ser acreditar.
O problema surge quando essa estética vira atalho permanente. Quando todas as marcas começam a parecer sobremesa, a diferenciação desaparece. A estética food é um recurso potente, mas não é estratégia por si só. Sem posicionamento, narrativa e verdade de marca, o produto vira apenas algo bonito de olhar e fácil de substituir. O desejo é imediato, mas raso. E tudo que é raso tende a durar pouco.
No fundo, essa obsessão diz menos sobre inovação estética e mais sobre o comportamento do consumidor contemporâneo. Ele não quer apenas resultado. Quer experiência sentida, mesmo à distância. Quer conforto, prazer, acolhimento e indulgência. Quer algo que faça sentido emocionalmente antes de fazer sentido racionalmente.
A questão estratégica, portanto, não é se o produto parece comida, mas o que essa estética está ajudando a comunicar. Nutrição, prazer sensorial, cuidado indulgente, conforto emocional. Quando a resposta é clara, a estética traduz valor. Quando não é, ela apenas distrai.
