O Fim do "Testado por Dermatologistas"? O que a AAD nos ensina sobre o futuro do skincare e a credibilidade das marcas
A invasão de influenciadores e marcas no maior congresso de dermatologia do mundo revela uma mudança profunda no comportamento do consumidor e no mercado de beleza.
ANÁLISE DE MERCADOBRANDINGPRODUTOSVALORTENDÊNCIAS
Laísa Sandin
6/18/20263 min read
Recentemente, a AAD (American Academy of Dermatology) realizou seu tradicional congresso anual. Historicamente, esse evento sempre foi o epicentro da ciência cutânea — um espaço reservado para médicos, debates sobre oncologia, ensaios clínicos e inovações farmacêuticas. Mas quem caminhou pelos corredores da última edição notou uma transformação drástica: um aumento considerável na participação de marcas de beleza, influenciadores digitais e ativações de marketing experiencial.
Essa mudança visual e cultural acende um alerta e nos traz uma série de questionamentos urgentes sobre parcerias, formulações, ciência e, acima de tudo, credibilidade.
A Saturação do "Luxo Acessível"
Para entender como chegamos até aqui, precisamos contextualizar o mercado. O skincare cresceu exponencialmente nos últimos anos. O cuidado com a pele deixou de ser um nicho restrito e se tornou um luxo relativamente acessível. Hoje, manter uma rotina de cuidados eficiente já não exige os gastos exorbitantes de antigamente.
Para acompanhar esse ritmo, as marcas precisam investir cada vez mais em fórmulas eficientes e seguras. É isso que justifica a presença em massa dessas empresas em congressos médicos renomados. Elas buscam validação.
No passado, a presença de marcas na AAD não gerava estranhamento porque limitava-se a gigantes com profundos pilares de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), como L’Oréal e Neutrogena, que mantinham uma colaboração orgânica com a classe médica. Hoje, o cenário mudou: o congresso virou palco de disputa por atenção, repleto de marcas recém-criadas, muitas delas fundadas pelos próprios dermatologistas e profissionais de estética.
A Crise de Diferenciação no Mercado de Beleza
Essa expansão nos faz questionar: como fica a credibilidade das marcas em um mercado tão saturado?
Estamos diante de um risco real de science-washing (o uso superficial da ciência apenas como argumento de marketing). Quando dezenas de marcas novas se aproximam de profissionais da saúde sem realizar pesquisas extensas e dedicadas à eficácia real de seus produtos, cria-se uma crise de confiança.
Com a enxurrada de novos players no mercado, ter um produto "formulado em parceria com um dermatologista" ou ostentar o selo de "testado por especialistas" deixou de ser um diferencial competitivo. A longo prazo, essa chancela perde o peso se não houver substância por trás.
O Consumidor "Expert" e o Fenômeno dos Dermfluencers
Enquanto o mercado se satura, o consumidor final evolui. Ele se tornou muito mais exigente. Ele lê rótulos, estuda os ativos (como peptídeos, niacinamida e ácidos) e já não aceita passivamente promessas genéricas.
É nesse cenário que os dermfluencers (médicos influenciadores) ganham força. Eles possuem um papel fundamental: democratizar e descomplicar a saúde da pele para o consumidor padrão. O problema não é o médico criar conteúdo ou fazer parcerias. A questão principal levantada no próprio congresso é o abismo entre o profissional que atua há décadas na prática clínica, atendendo pacientes reais, e a nova figura do profissional certificado que quase não atende em consultório e foca sua energia em gerar conteúdo e lançar marcas próprias.
O consumidor percebe essa linha tênue entre a recomendação baseada em evidências e o interesse puramente comercial. Um influenciador de jaleco que se une a qualquer marca, sem critério, perde o poder de influenciar vendas a médio prazo.
Fórmulas são Copiáveis. Credibilidade, Não.
No mercado atual, qualquer fórmula inovadora pode ser facilmente mapeada e copiada pela concorrência em questão de meses. O marketing sem substância evapora rápido. O que não se pode copiar é a confiança que a sua marca constrói com o público.
O maior desafio que as marcas, os médicos e a indústria enfrentam agora é a manutenção da transparência. O futuro do skincare exigirá clareza total sobre resultados reais, efeitos colaterais e eficácia comprovada por trás das embalagens bonitas. A ciência não pode ser rebaixada a apenas mais uma tendência passageira do TikTok.
